Resumo:
Avaliação Neuropsicológica é um exame complexo;
Busca descrever o perfil psicológico, cognitivo, emocional e/ou comportamental do indivíduo;
Serve para:
Auxílio diagnóstico: considerando, por exemplo, hipóteses de TEA, TDAH, Processos Demenciais, Transtorno de Personalidade Borderline, Transtorno Bipolar...
Mensuração de déficits na cognição: para avaliar alterações na linguagem, memória, atenção, aprendizagem, tomada de decisão...
Investigação de alterações no funcionamento emocional e/ou comportamental: como labilidade emocional, apatia, dificuldade de se relacionar com os outros, alteração de personalidade, ou a presença de comportamentos estranhos e bizarros para aquele indivíduo e contexto específicos...
Acompanhamento para reabilitação: por exemplo para alguém que sofreu um acidente grave, um traumatismo ou AVC, e busca entender onde pode intervir para a reabilitação.
Fundamentação (ou não) de interdição legal: a decisão é determinada pelo juíz, legalmente, contudo uma Avaliação bem feita informa o profissional para uma melhor escolha e permite os encaminhamentos para a família.
Psicodiagnóstico em casos jurídicos (perícia psicológica): em casos de abuso, violência, ou de adoecimento psíquico no trabalho, o psicologo ou neuropsicólogo pode ser chamado para avaliar e descrever o estado cognitivo e emocional do indivíduo. O objetivo não é encontrar culpados ou decidir se a vítima está correta ou não, mas sim compreendê-la.
Habilitação para porte de arma e direção: pois atividades que oferecem risco como porte de arma e habilitação da carteira de motorista exigem que o indivíduo seja capaz de lidar com tais equipamentos, o que é verificado pela avaliação.
Outros casos (ex. autoconhecimento): quando alguém quer mapear seus pontos fortes e fracos, se conhecer melhor, também pode ser uma fonte interessante de insights e informações.
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O que é e como funciona uma avaliação?
A Avaliação Neuropsicológica (também conhecida popularmente como neuroavaliação) é um exame e um processo complexo que engloba entrevista de anamnese, observação clínica, busca por fontes secundárias de informação (ex. escola, progenitores, filhos...), aplicação de testes padronizados, uso de escalas e questionários, correção e análise dos resultados, raciocínio clínico e psicodiagnóstico, produção do laudo e entrevista devolutiva. Tais processos visam mensurar funções cognitivas, padrões emocionais e comportamentais e, assim, produzir uma descrição mais completa do indivíduo a qual normalmente presta-se para auxílio diagnóstico de condições como TDAH, TEA, para compreender as consequências de acidentes vasculares cerebrais (AVCs), para investigar possível Transtorno Cognitivo Menor ou Maior, Transtorno Bipolar, entre outros.
Usualmente, o processo todo demora entre 5 a 8 sessões, podendo levar mais tempo em casos complexos. Além disso, é importante salientar que não se trata apenas de aplicar um teste e entregar um resultado corrigido automaticamente, é sempre preciso avaliar os dados quantitativos em conjunto com os qualitativos e à luz do comportamento e apresentação do sujeito. As estatísticas podem enganar caso não se saiba como interpretá-las.
Enfim, quando é recomendado buscar uma avaliação?
De forma resumida, recomenda-se uma Avaliação Neuropsicológica quando é preciso investigar de forma aprofundada alterações no funcionamento cognitivo, emocional e/ou comportamental do paciente, alterações as quais causam sofrimento e/ou prejuízos significativos ao próprio indivíduo ou a seu círculo social.
Abaixo, elaboro sobre algumas das razões mais comuns e trago exemplos da prática clínica.
A primeira razão, e a mais comum, é quando há indicação médica. Como citado acima, a avaliação serve como exame que auxilia o diagnóstico ao descrever o funcionamento do indivíduo. Médicos costumam estar envoltos em uma cultura de trabalho na qual são extremamente requisitados e em que lhes é exigida eficiência máxima e, por isso, é cada vez mais comum que eles dispendam menos tempo com seus pacientes para poder ajudar mais pessoas. Pressionados, eles acabam recorrendo a exames de precisão para auxiliá-los em suas decisões acerca do tratamento de seus pacientes, buscando dados confiáveis para cuidar da vida das pessoas. Tais exames podem ser uma ressonância, um exame laboratorial, de imagem, etc, ou, em muitos casos, uma avaliação neuropsicológica. Especialmente quando fatores psicológicos, emocionais ou comportamentais importantes, mas de difícil investigação, são relevantes para diagnósticos diferenciais.
Por exemplo, é comum que pessoas com TDAH apresentem dificuldade no desempenho acadêmico desde a infância por serem muito distraídas, não focarem tão bem nas aulas e aprenderem normalmente de modo diferente. Similarmente, pessoas com dislexia e discalculia também costumam apresentar baixo desempenho acadêmico na infância, o motivo, contudo, é uma alteração no processamento das informações e estímulos. Quando adultos, é comum tanto pacientes com TDAH, quanto com Dislexia, apresentarem baixa autoestima, acharem que há algo de errado com eles, considerarem-se diferentes dos outros ou "burros", sem entender o motivo. Esse diagnóstico diferencial não é simples de ser feito através de entrevistas curtas e não específicas e pode ser facilitado pelo uso de testes que mensurem a capacidade do indivíduo de manter a atenção e de trabalhar e processar estímulos linguísticos, sejam verbais e escritos.
Outro caso bastante comum refere à suspeita entre o Transtorno do Espectro Autista e Transtornos de Ansiosos graves e/ou de Ansiedade Social. Em ambos os casos há um prejuízo elevado nas relações sociais, o sujeito pode ficar incapacidade de interagir com outras pessoas, apresentando comportamentos de fuga e esquiva significativos e levando a consequências na vida diária como uma demissão do trabalho, por exemplo. Novamente, tal distinção pode parecer simples de ser feita, mas não é. Pessoas dentro do TEA tendem a apresentar várias características que podem ou não estar presentes em pessoas com transtornos ansiosos como desregulação emocional, baixa autoconsciência, rigidez do comportamento... entender mais profundamente e com maior acurácia os processos que estão ocorrendo com o paciente ajuda a diferenciar tais casos e, deste modo, promover um tratamento e intervenções mais adequadas e um prognóstico melhor.
Além dos exemplos acima, a avalição pode servir ao diagnóstico diferencial para diversos transtornos psiquiátricos tais quais transtorno de personalidade borderline, ao investigar a dinâmica emocional; depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia e outros do espectro das psicoses, e mais. O neuropsicólogo, hoje, deve conhecer profundamente diversas psicopatologias.
Claro, há vários outros motivos para se buscar uma avaliação nas mais diversas idades. A seguir quero apresentar mais três casos comuns e significativos: lesão e trauma cranioencefálico em qualquer idade; déficits expressivos em funções cognitivas como na produção e/ou no entendimento da linguagem (afasias), esquecimentos frequentes (memória), lentidão de tomada de decisão e resolução de problemas (funções executivas e raciocínio), desatenção exacerbada e inesperada (atenção), nota-se ainda que tais prejuízos são de especial significância durante a terceira idade e podem indicar a ocorrência de Acidentes Vasculares, processos demenciais (Transtorno Neurocognitivo menor ou maior) ou outras condições importantes; e, por fim, dificuldades de aprendizagem recorrentes e/ou atrasos no desenvolvimento durante a infância e adolescência.
Os casos acima são seminais ao salientarem três aspectos que todo neuropsicólogo deve se atentar, a saber, a) relação entre cérebro e comportamento; b) alterações normais e patológicas durante o desenvolvimento e o ciclo de vida; c) efeito dos conflitos emocionais sobre a cognição e o desenvolvimento.
Então, desde os estudos de Alexander Luria com crianças e com soldados, de Pierre Broca com pacientes afásicos, e do famoso caso do paciente Phineas Gage, que a relação entre a integridade cerebral e alterações nas funções cognitivas e no comportamento tem se tornado cada vez mais evidente. Ou seja, foi se descobrindo que o cérebro é um órgão complexo, formado por diversos sistemas que operam em conjunto e que uma falha ou lesão em determinado sistema pode afetar a expressão de um comportamento/função. Deste modo, provavelmente uma lesão no hipocampo afetará a memória; no córtex pré-frontal afetará a tomada de decisão, regulação emocional, compreensão social; uma lesão nas áreas de Wernicke ou de Broca afetará a compreensão e produção da linguagem, respectivamente. Ou seja, quando uma pessoa sofre um acidente que pode lesionar partes do cérebro, como bater a cabeça (trauma cranioencefálico), por um AVC, por uma angiopatia, é importante avaliar possíveis déficits comportamentais e/ou cognitivo. A avaliação vai fazer esse papel.
No segundo caso, o menor desempenho de capacidades cognitivas durante o envelhecimento é esperado, cabe ao neuropsicólogo ser capaz de distinguir o considerado normal do considerado patológico. Normalmente o idoso começa a perceber prejuízos após se aposentar, como esquecer uma palavra, perder um compromisso, demorar para fazer a contabilidade, queimar a panela no fogo, se perder na rua... e perceber isso traz muito medo. Será que estou com demência? É Alzheimer? O que vai ser da minha vida daqui para frente? Similarmente, a família se assusta e se preocupa com o prognóstico do ente querido. O neuropsicólogo é o profissional capacitado para avaliar se realmente o declínio cognitivo é além do esperado para a idade e se esse perfil é compatível com algum quadro demencial. Tais informações auxiliam na formulação de um diagnóstico preciso em conjunto com outros exames como ressonâncias magnéticas e tomografias computadorizadas e, desse modo, pode orientar a família e o paciente aos próximos passos buscando garantir uma maior qualidade de vida, autonomia e bem-estar.
O último caso específico que quero tratar neste texto versa sobre o efeito dos conflitos emocionais sobre a cognição, especialmente durante a aprendizagem e a infância. A Psicologia humana não é apenas razão, é emoção também, ambas caminham de mãos dadas e se afetam mutualmente. Assim, o neuropsicólogo também deve ser um entendedor dessa relação. É bastante comum que crianças apresentem dificuldades de aprendizagem, tirando notas baixas, tendo comportamentos inadequados à sala de aula, se distraindo ao estudarem, mas é importante salientar que nem sempre essas crianças apresentam um transtorno como TDAH, TOD, Dislexia, Discalculia, TEA ou outros. Muitas dessas crianças demonstram tais dificuldade por complicadores ambientais como falta de estímulo e de incentivo em casa, de escassas condições materiais para estudar, ou por conflitos emocionais e sofrimentos relacionados a adoecimento na família, violência doméstica, abuso sexual, bullying, morte de um parente, exclusão social, negligência... Ao neuropsicólogo é fundamental não realizar um diagnóstico precipitado e estigmatizar a criança, é preciso sermpre ter um olhar humano e atento para tais fatores e compreender o efeito do emocional.
Enfim, os casos descritos acima são apenas algumas das demandas que surgem na clínica, outros motivos também pode ser o acompanhamento para início de um processo de reabilitação cognitiva, fundamentação (ou não) de interdição legal, psicodiagnóstico em casos jurídicos (ex. para perícia psicológica), verificação de habilitação para porte de arma e direção, ou mesmo para autoconhecimento e diagnóstico de superdotação.
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Att.
Guilherme Porfirio Baccari (Neuropsicólogo CRP 06/200141)
20 de março de 2026